27 de janeiro de 2015

Gastei Palavras


Gastei palavras que nunca cansam de se reafirmarem, não posso mais voltar sozinha
Nem degolar sentidos e emoções com a minha reação psicótica... Parece que não tem fim,
Devia ter fim? Essa faísca que se arrasta nesse frio melancólico, mas não é nem tarde ainda...
Ou talvez seja um pouco cedo demais, eu acabei de derrubar meus rascunhos e embebedá-los
Com chá, nem tão chá, amargo e aveludado... Saio de casa, na rua parece tudo mais claro,
Tudo mais cansado, tudo mais inevitável, tudo mais gelado. Gastei palavras que nunca cansam
De me confortar, não posso mais me escorar em qualquer canto, nem sair perguntando
"Quando a diversão vai começar?". Um pouco pra fora de mim, um pouco menos literário...
Mas ainda é terça-feira, um dia nada poético, lá se vai um livro chamado Palavras Gastadas.
Os passos são fracos, inseguros, brancos... Eu paro e rio, pra onde estou indo? De que adianta
Andar nessa calçada desuniforme, atrás de um apelo coletivo, três gotas de inspiração?
Vejo pessoas loucas, correndo e falando no celular, cada uma mais fria e sem cor envolta
De fumaça, de álcool, de batom borrado, de terno desalinhado gastando palavras que nunca
Cansam de mentir, talvez, eu possa lidar com isso... Talvez, seja mais fácil lidar com mentira.
Volto pra casa, cadê meu brinco? Perdi mais um botão? Gastei as palavras que estava guardando?

Daniele Vieira

14 de dezembro de 2014

Insanas Para Amanhã


São poucas as coisas quais eu tenho sanas em minha cabeça
Sanas, puras, resguardadas e estruturadas em forma de cristal
Não consigo mais beber dessa fonte rasa de inspiração e nem
Contornar com os dedos esse cálice de aço gelado e prepotente.
Quem eu sou hoje não reflete e nem retrai. Então, quem sou eu?
Uma osmose de pensamentos ambulante? Um caleidoscópio quebrado?
É um frio caloroso, arrepiante e que trás verdades que me deixa assim,
Desamparada, tremendo, com medo, vazia, crua, quem outrora fui e hoje sou...
A quem pertenço? Sou do mundo, sou da terra, sou do mar, sou da floresta
Eu sou o mundo! Não caibo em eu mesma... E se hoje sou assim...
Amanhã como serei? Quem eu serei? Retalhos de quem eu fui?
Fragmentos de mundo destruído? Um mar poluído e sem inspiração?
Um quase sem poesia? Não. Não sei viver assim. Não devo viver assim.
Prefiro minhas ideias insanas e psicodélicas que enfeitam os pilares
Da minha criatividade, prefiro o horizonte azul e Sol explosivo forte...
Prefiro aquela bagunça que no meio de bugigangas ainda era arrumada.
Prefiro o cheiro de tinta e as que mancham o chão, prefiro ser pra mim.

Daniele Vieira

30 de novembro de 2014

De Domingo



Das tardes de domingo,
Das horas que não passam,
Dos pressentimentos não sentidos,
Da escuridão enorme,
De tudo que trás esse querer ser e
Do que eu não posso e já perdi.

Horizontes quebrantados,
Horas jogadas no mar,
Horas que vão e vem devagar,
Horas que fogem todo instante,
Há motivos para querer julgar?
Há razão que me aprisione?

Quando tenho os mesmos medos
Qualquer coisa não basta
Quer saber?
Quase escapa pelos meus dedos
Quase esqueço de esquecer
Que não preciso ser tão complicada.

Mas como me descomplicar?
Mais amor pra cá? Mais poesia?
Mar e maresia?
Mora lá perto de casa,
Muda pra praia,
Minha manha de domingo.

Daniele Vieira

22 de novembro de 2014

Simples Azul Profundo

Ele se sentou na varanda, perto dos meus discos de vinil, com um ar cansadoramente inebriante
Tinha em suas mãos papel e caneta azul profundo, precisou mais de um trago daquele ar úmido
E com um sorriso devastador, ele destrinchou as primeiras palavras, as quais o mesmo não sabia explicar... Mas ele se sentia tão impotente!
Ah, os cantos da palma já estavam todos borrados e o papel manchado de azul profundo, azul mundo!
Qual eu pertenço, qual minhas cumbucas estão espreitas pela casa, qual lírios brotam na varanda!
Mas ele estava sentado na varanda e nem cheiro, e nem calmaria, alcançavam seu coração escuro...
Nem as rimas fracas e nem a metrificação! Estava tudo tão cinza e perturbador, mas tão sincero!
Tão cálido, tão joia, tão simples! Ele se permite ri de tal sentimento devorador, entusiasmador e conflitante! Isso trás paz... Trás simplicidade gigante!
Arrastava os dedos no papel, nunca precisou de muito e mais uma vez tinha uma péssimo rascunho numa folha datada. Não precisava de mais nada.

Daniele Vieira

19 de novembro de 2014

Madrugada Devora

Eu andava na chuva com jeito
Agora já quase caio, tantos defeitos
Antes que fosse um parada qualquer
Imaginando problemas onde houver
Intrigas, barulhos, palavras que devoram
Andando sem direção, outra escada
Esperando qual será a próxima piada...
São apenas opiniões que me degolam...

E essa capa em cima do balcão do hotel
Tá tão frio aqui fora, tão sujo esse céu
As ruas submergem esdrúxulas, molhadas
No outo lado corre um cara de mão armada!
Medo, reações e sentimentos que devoram
Imundos e sedentos estímulos urbanos
Aah, mas tão travessos e levianos!
Nem as mais doces poesias os saciam!

Luzes de led brilhando no breu melancólico
Cuidando do mendigo de humor alcoólico
Correr pra onde? A vista daqui é bem agradável
Pra quê ter quando se pode admirar o inalcançável?
Estranho vazio (cheio) da madrugada que me devora
Joga-me na parede e me intriga mais e mais
Como se eu fosse vulnerável, pequena e não capaz
Grita, burla, chora e provoca essa emoção que aflora.

Daniele Vieira

2 de novembro de 2014

É Hora De Ilustrar


Ilustra esse vão cinzento com cores que eu não entendo
Tarde, é tão tarde para entender o que não deveria nem tentar
O meu jeito nunca foi na verdade meu, já não sei o que tenho
Nem o que eu deveria ter, palavras me faltam, motivos também...

É hora, era tempo, nuvens degolavam minhas ideias pálidas
Eu sei, não preciso estimular essas aspirações que custam a aspirar
Venho, pra quê não enfrentar essas manias obsoletas de minha prosa?
Obséquio sentimento, eu deveria querer mais? Eu deveria? Quero mais...

Figura essa dança que eu nunca consigo acompanhar, eu não entendo
Cedo, é tão cedo para entender o que não consigo nem acompanhar
Esse jeito talvez um dia seja meu de verdade, talvez eu saiba que tenho
Tudo o que eu deveria ter, movimento me inspira, emoções também...

É hora, era tempo, nuvens degolavam minhas ideias pálidas
Eu nunca sei se preciso encorajar esses anseios que custam a ansiar
Vou, pra quê enfrentar esses desafios que desaguam em minhas palavras?
Inundam com cores que eu não entendo, mas que eu queria que fossem minhas...

Cores tão sozinhas, tão juntas, tão fraternas
Perdi-me ao não querer o suficiente para mim
É hora, era tempo, para inspirar o cinzento
Eu deveria criar mais? Palavras não me faltam...

Daniele Vieira

9 de outubro de 2014

Vem Acostumar


Vem me acostumar
Que do pouco que lembro
Borrão de imagens coloridas

Vem me acostumar
Para não me esquecer
Das palavras que sempre perco

Vem me acostumar
Se não é tarde
Para tentar me convencer

Vem me acostumar
Flores esparramadas no chão
Se não puder voltar, deixe-me estar

Vem me acostumar
Gotas delineando o rosto
Não se sabe se era suor ou choro

Vem me acostumar
Já não tenho mais nada
Só muito pouco para dar

Vem me acostumar
Que do pouco que lembro
Borrão de imagens descoloridas.

Daniele Vieira